segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Nos Recantos do Passado


O meu estirador não é a história.
É um campo diferente, são outros céus, outros montes; enfim, são outras encruzilhadas que ocupam os miolos.
Na presença de tão relevante convite, oferecido por uma pessoa que muito aprecio, tinha que estar, mais uma vez, presente no encontro de apresentação do seu novo livro.
Não era com toda a certeza o frio que nos impediria de passear até ao Palácio de Cristal, relembrar as muitas visitas que efectuamos ao longo da vida, saborear um cafezinho gostoso, enquanto os pavões, as gaivotas e os pombos iam debicando aqui e acolá, para a alegria da criançada. Nunca namoramos nos jardins da beleza, só que nunca esquecemos as esbeltas paisagens que dela se podem alcançar. As rosas estão mais tristes e as árvores adormeceram para hibernação. Fazem bem porque têm muito que trabalhar. Ai delas, que a partir da primavera não façam surgir as folhas viçosas. Todas elas juntinhas são autênticos chapéus que amenizam o calor do verão.   
O Sr. Germano é um portuense convicto e ilustre, que não se cansa de abrir os baús guardados pela poeira do tempo e com prazer, antecedido pela admiração, transporta para as páginas em branco ou faz ecoar pelos trilhos da nossa cidade, os elementos históricos que desconhecemos. É, indubitavelmente, uma figura cimeira da nossa cidade e da nossa cultura.
O auditório estava cheio de pessoas ilustres do panorama cultural e intelectual da nossa cidade. Sou franco, desconheço a grande parte delas, só uma ou outra, com mais ou menos intensidade. Forçosamente tinha que ser assim, nem de outra forma poderia ser, isto é, em certa medida, muitos e bons a prestar tributo aquém o merece.
No encontro o Sr. Dr. Ribeiro da Silva da UP, presenteou a sala com uma excelente intervenção e disse, entre muitas coisas com toda razão, que não basta amar a cidade é preciso conhecê-la. E é isto que o Sr. Germano tem feito. Abre a nossa memória porque nela pode estar algo de muito útil para o futuro. E estando ela viva, não podemos destruir o presente. Temos que aproveitar os ensinamentos do passado.
Eu tive o privilégio de ter um pai com uma determinada profissão e de o ter acompanhado na sua labuta. Nesta parte da minha vida percorri muitos quilómetros pelo nosso burgo, nos bolsos levávamos sempre um roteiro, entrei em muitas e muitas casas, desde o riquíssimo até ao mais pobre. No lugar em que me sentei e num dado momento pensei, sobre a minha cidade pouco sei. E agora, o mais depravado que possa existir, depois de ter cantado em muitos sábados que já não voltam mais cantigas do cancioneiro nacional, eu desconhecia o hino lindíssimo da nossa cidade e outras cantigas das suas gentes. O conhecer ficou a dever-se ao Rancho Folclórico do Porto que cumpriu inteiramente a sua incumbência.  
A afirmação “na vida estamos sempre a aprender” é verdadeira e tem um largo alcance, dada a sua aliança à realidade.
Depois de um copito de verde branco, fresco qb e saboroso viemos embora.
Ao passar nas traseiras da Universidade encontramos uma grande tenda de solidariedade da organização “Cais”. Dentro dela cantava uma bela moça uma canção soul americana e lembrei-me de um natal. Lembrei-me de uma véspera de natal, numa casa pobre, com muitos filhos e filhas da minha idade, gente humilde e boa, aonde o meu pai levou mais alegria e que, como era seu timbre, não levou nada pelo serviço prestado, apesar da insistência. A casa toda cheirava a doces, as luzinhas piscavam num pinheiro bravo e nós fomos presenteados com umas rabanadas gostosas. Se não recusássemos, nunca mais de lá saíamos. Saboreei um cheirinho de Porto acabado de abrir e pela primeira vez na vida senti o impulso de apreciar uma rapariga.
Antes de ir jantar, ainda deu para pôr os olhinhos na singela e bem colocada árvore com que a Câmara ornamentou o centro do mundo.

09.12.2012

Trajecto pedestre: Damião de Góis, Monte Cativo, Tv. Figueiroa, Cedofeita, Breyner, Casais Monteiro, Miguel Bombarda, Biblioteca Almeida Garrett, H.S.António, Restauração, UP, Clérigos e Metro.

09.12.2012

Trajecto pedestre: Damião de Góis, Monte Cativo, Tv. Figueiroa, Cedofeita, Breyner, Casais Monteiro, Miguel Bombarda, Biblioteca Almeida Garrett, H.S.António, Restauração, UP, Clérigos e Metro.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

As Virtudes

Decidimos ler as páginas de Pomar, dependuradas nas paredes da Árvore, segundo a orientação: atirem as albardas ao chão. Árvore implantada num canto de um belo jardim, do qual miramos as ravinas e escarpas ajardinadas, O RIO e o mar. Chamam-lhe Passeio das Virtudes.
Sentamo-nos para descansar os pés, um tanto cansados pelo trajecto. O sol do princípio da tarde aqueceu e iluminou um espaço de artistas. Realmente, permite um ponto de vista e nele pululam ao longo dos dias muitos pontos de vista, direccionados a muitas vertentes da criatividade, incitadas pela Árvore. A árvore é de homens e mulheres da bela arte. E não só, ela está implantada e ramificada no burgo, por dentro e por fora das pedras ancestrais. Pedras cinzeladas pelos artistas da perenidade firme em que partilhamos para lá e para cá a vida.
Levantamo-nos e dirigimo-nos à porta.
-Os senhores enganaram-se. Disse o baixinho esturricado pelos restos da moca anterior.
-Ao domingo não há exposição, só à semana….
Como bom porteiro, arrumador de carros nas traseiras do Tribunal e substituto de um pequeno cartaz a indicar o horário, teve direito a uma “gorja” para comprar um mulete mais acima.
Realmente, houve distracção da nossa parte. O visitar a exposição foi calendarizado para outro dia. Aproveitamos para esticar o pernil e avivar a memória, seguindo tudo o que era virtudes. Descemos a Calçada, apreciamos o Jardim do Horto, percorremos a Rua dos Armazéns e subimos a Rua Tomás Gonzaga, em direcção ao Largo de S. João Novo.
Diz-se que não podemos viver no passado e, em certa medida, usar de prudência com os excessos de regressão. Ditos com os quais concordo.
Entendo, no entanto, que o nosso presente tem muito do que está para trás. Parte substancial do reforço da vontade que recai no nosso agir presente e futuro advém do amor que nos deram, em momentos que cada vez mais se afastam de nós. Estão os nossos erros e as nossas correcções, desvarios e loucuras, e as pasmaceiras. Está lá o bom que temos de tornar óptimo, até, sei lá quando.
Assim, entramos no Largo de S. João Novo. Recordei a bola a correr para baixo, depois de pontapeada para cima e tantas mais coisas, nomeadamente, parte dos meus. Aquele lugar poucas mudanças teve, está lá o formato do palco passado, mas não deixa de aconchegar um novo futuro.    
Não esqueço que o Porto, não é só Os Clérigos, é também lugar de viçosas Virtudes.


12.11.2012

Trajecto pedestre:
…Leões, Cordoaria, Azevedo Albuquerque, Passeio das Virtudes, Calçada das Virtudes, Rua dos Armazéns, Tomás Gonzaga, S. João Novo, Taipas, Mártires da Pátria, Clérigos, …

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Latada

Encetar e concretizar o passeio dos tesos é pegar em algumas moedas de 200 Escudos, mais qualquer coisa, e partir por entre as pedras da nossa vida. É descobrir um ou outro incidente dentro de um quadro de harmonia que nos habituamos a reter.
-É bom?
-Claro.
Começa logo por darmos largas às gambias, olear as cremalheiras, arejar a fogueira do peito e incrementar ligeiramente umas gotículas que provocam um cheirito esquisito nos sovacos; e até, na solaria dos pés. Mas, atenção, tudo feito segundo a expressão “tranquilo”.
Nesta altura do ano, levar a cabo tal intuito é partilhar o Outono, saborear um tanto o Verão de S. Martinho. Vamos por aí abaixo, aproveitando um calor fugidio, sem nunca descurar o eventual frio, possível de ocorrer.
Paramos na Rainha do Comércio. Conversamos um pouco, com a Mulher de Mascarenhas, negociante antiquíssima, cada vez mais pequenita, ex-líbris da nossa Cidade, quer do negócio das quentes e boas, bem como, do negócio dos gelados que conhecemos. Ofereceu-nos uma mão cheia de castanhas, agasalhadas por folhas de lista telefónica, como manda a sapatilha.
Os fogareiros já não são feitos pelos serralheiros de outrora, com as sobras do zinco dos clientes. Nem as partes eram juntas com as marteladas nos pregos de chumbo. Nem cortadas à mão, com uma espécie de tesoura da poda. Vendiam-se muitos nesta altura do ano, porque serviam a castanha e mais tarde a sardinha. Os artistas ganhavam uns cobres para a família. Arrumá-los todos para venda é que era difícil.
Lá continuamos, degustando castanhas bem assadas. Parávamos aqui e naquela montra com alguma novidade desconhecida. Demos alguma atenção à compra de dois e pagas um.
As castanhas transmontanas, produto natural, escolhidas a dedo, no sentido da maior, encaminharam – se para o nosso burgo, em sacos de serapilheira e pousaram em cada esquina. Elas não vieram para enfeitar esquinas. Vieram para cair dentro de panelas furadas, por onde entram as brasas que as tornam vaidosas e gostosas. Só que, quando trituradas no estômago, secam-no. Sendo necessário molhá-lo.
Pois muito bem, fiquem sabendo que, lá para as bandas de Mouzinho existe um estabelecimento comercial que fornece um café espectacular, por uma saída dos bolsos que não deixa remorsos. Tragado com suavidade e leveza, não é coisa costumeira.
O término ainda estava longe e a latada esperava-nos nos Clérigos.
A malta conseguiu reunir uma montanha de latas, com as quais aproveitou para retirar o silêncio aldeão do fim-de-semana. É verdade, o burgo que amamos até a eternidade não tem só vistas, tem ruídos e cheiros que variam, segundo o dia da semana. Calados os pós-pós, vem à ribalta outros cânticos, outras melodias que nos deixam atónitos, porque não prestamos atenção ao seu ecoar, por entre os emires de tão grandiosa catedral.
O Porto não se estende por um só sentido. O Porto irradia em todas as direcções os nossos sentimentos. Melhor dizendo, irradia a nossa grandiosa cultura. O Porto é uma forma singular de sentir e pensar.
Antes de retomar o rumo, não podemos esquecer o que está dentro, porque o que está por fora, reflecte-se através de fachadas que nos fazem dirigir os olhos e criam formigueiro na palete do sistema ocular.
Devagarinho e de passagem apreciamos os gostosos pastéis da confeitaria noctívaga, situada num dos passeios, da rua sobranceira à Torre dos Clérigos, da qual somos clientes, ora sim, ora não.
No começo da rua deparamos com o novo conserto do mercado. Uma coisa é colocar os olhos numa folha de papel, outra é dar trabalho aos sentidos. Realmente, os homens do desenho fizeram um bom trabalho. O telhado é um jardim de oliveiras, que mata as saudades a muitos e encanta o olhar a todos. Espero que elas não morram e que todos as respeitem. Por baixo, uma pequena rua cheia de estabelecimentos comerciais, que bate de frente com a Lello e cujo chão é coberto por pequenas placas de granito, a imitar as coberturas com tacos de madeira. Uma rua que nos permite olhar para o céu e, simultaneamente, nos abriga do sol e da chuva, enquanto miramos as suas lojas.
Seguindo em frente, deparamos que os Leões não jorravam água como outrora, quando por lá passávamos de eléctrico. Os doutores enfiaram-se na fonte e aproveitaram para lavar as sacas das latas. A juventude num acto de afoito e rebeldia deram-nos mostra da sua coragem e grande lata. O que não quer dizer que um acto desmedido hoje, não conduza a actos bem medidos amanhã. Convém salientar que alguns maçaricos apanhavam as latas que iam caindo ao chão.
Ao olhar para os portões da Universidade, onde entrei pela primeira vez, no verão de setenta e três, para um cursito, a ver se gostava de coisa determinada, solicitei à consciência para desviar os olhos e seguir caminho. Assim, evitei admirar tantas pinturas rupestres lavradas nos ditos portões pelos sprays da noite.
Sempre achei que Carlos Alberto é uma das praças mais bonitas da Cidade, mas um tanto despida de arvoredo, pela ausência de equilíbrio, embora reconheça que o alcançar é difícil.
Entramos na Rua estreita, antes florescente de bom negócio, aproveitamos para matar saudades e, mais uma vez, apreciar a dignidade e a força dos seus comerciantes.
Como dizia, muitas vezes, passamos parte das nossas vidas a prometer entrar em algum sítio e nunca cumprimos tais promessas. É vergonhoso.
Ontem, cumprimos mais uma. Uma porta de vidro chamou-nos, entramos, olhamos em frente, reconhecemos as imagens de grandes e boas pessoas, e meditamos com toda a serenidade do mundo.
Algo na nossa Cidade está a mudar.
A mudar com calma, sem pressas, sem destruir a memória e prevenindo erros crassos de gravíssimas consequências. O futuro vem na mesma. À medida que ele se aproxima juntamos a nossa melhor racionalidade e sensibilidade às acções, de modo a não destruir aquilo que nos distingue.

Trajecto pedestre: Santa Catarina, Santo Ildefonso, Comando, Vimara Peres, Mouzinho, Clérigos, Leões, Cedofeita, Bragas, para casinha que já se faz tarde.

29.10.2012

O “Mosquito”

“O Mosquito” faleceu. Já passaram um bom par de anos, desde os seus momentos de agonia no leito, em que habitualmente descansava, e do seu enterro no Prado de Repouso. Foi um Portuense como tantos outros, sem direito a homenagens especiais, a não ser daqueles que ele muito queria e amava à sua maneira. Algo que se sentia no brilho dos seus olhos e nas covinhas das suas faces.
Quando dizemos faleceu, entendemos como um deformar até desaparecer, conforme indicação dos nossos sentidos. Mas, sabemos alguma coisa. Nunca mais, ele é alvo dos nossos sentidos. Nada poderemos substanciar mais com base nos nossos sentidos. Somos proprietários daquilo que substanciamos até à sua morte. 
O que fica?
Fica a nossa memória atravessada por registos do espraiar de muitos sentimentos nobres. Feito o resumo de tudo, o resultado que obtemos são laços de ternura. É o amor que nos deram e que por obrigação teremos de dar. Talvez, da mesma forma contida, imperceptível e, ao mesmo tempo, muito expressiva. Não será esfuziante. É com toda a certeza firme.
Após a morte de quem amamos passamos a valorar a vida que construímos e um outro mundo. O mundo imaterial, local onde se guarda as vidas passadas, os resumos de muitos laços de ternura. Não será só recordações. É algo que se esconde e que surge em muitos momentos da nossa vida. No acto de educar, lá vem o que ficou em nós desses tempos que já não voltam mais. É muita coisa, é muita influência!
Valerá a pena falar do “Mosquito”?
Vale. Ele era um fruto da Ribeira, um cidadão do mundo. Veio para ser daqueles que estão e querem estar à frente das coisas.  
Para ti que estás no mundo, aonde eu hei-de estar, não sei é quando.

Trajecto pedestre: Metro, Latino Coelho, Santos Pousada, Bonfim, S. Victor, S. Lázaro, Poveiros, Passos Manuel, Santa Catarina, Metro.

06.11.2012

O Princípio

A imagem aqui reproduzida é da minha autoria.
Ela mostra, parcialmente, dois nacos de terra, unidos pelo RIO e por uma PONTE singular.
É a este espaço que chamo RIBEIRA. É algo que foi cimentado ao longo dos tempos. Dois pontos de vista, duas margens, que não podem viver uma sem a outra. Ligadas pelo aço e pela água que corre para o mar. Tanto passamos a pé, como a nado, de um lado a outro. Não se concebe uma sem a outra. Os que estão de lá estão de cá. As suas recordações são as mesmas, feitas de aventuras e desventuras.
Esta Ribeira é o meu berço e o berço do Porto.
Está gravada na minha memória a primeira imagem de que tive consciência, a ela damos o nome de Ponte D. Luís I. 
Mas, Oporto não é só este monumento erguido por tantos homens e mulheres, desde tempos remotos. É um monumento estendido e erguido ao belo. É a nossa fonte de riqueza.
OPORTO é muito mais do que isso.
Hoje e amanhã é suporte de vida, desde a água ao seu lado profundo.

06.11.2012