Encetar e concretizar o passeio dos tesos é pegar em algumas moedas de 200 Escudos, mais qualquer coisa, e partir por entre as pedras da nossa vida. É descobrir um ou outro incidente dentro de um quadro de harmonia que nos habituamos a reter.
-É bom?
-Claro.
Começa logo por darmos largas às gambias, olear as cremalheiras, arejar a fogueira do peito e incrementar ligeiramente umas gotículas que provocam um cheirito esquisito nos sovacos; e até, na solaria dos pés. Mas, atenção, tudo feito segundo a expressão “tranquilo”.
Nesta altura do ano, levar a cabo tal intuito é partilhar o Outono, saborear um tanto o Verão de S. Martinho. Vamos por aí abaixo, aproveitando um calor fugidio, sem nunca descurar o eventual frio, possível de ocorrer.
Paramos na Rainha do Comércio. Conversamos um pouco, com a Mulher de Mascarenhas, negociante antiquíssima, cada vez mais pequenita, ex-líbris da nossa Cidade, quer do negócio das quentes e boas, bem como, do negócio dos gelados que conhecemos. Ofereceu-nos uma mão cheia de castanhas, agasalhadas por folhas de lista telefónica, como manda a sapatilha.
-É bom?
-Claro.
Começa logo por darmos largas às gambias, olear as cremalheiras, arejar a fogueira do peito e incrementar ligeiramente umas gotículas que provocam um cheirito esquisito nos sovacos; e até, na solaria dos pés. Mas, atenção, tudo feito segundo a expressão “tranquilo”.
Nesta altura do ano, levar a cabo tal intuito é partilhar o Outono, saborear um tanto o Verão de S. Martinho. Vamos por aí abaixo, aproveitando um calor fugidio, sem nunca descurar o eventual frio, possível de ocorrer.
Paramos na Rainha do Comércio. Conversamos um pouco, com a Mulher de Mascarenhas, negociante antiquíssima, cada vez mais pequenita, ex-líbris da nossa Cidade, quer do negócio das quentes e boas, bem como, do negócio dos gelados que conhecemos. Ofereceu-nos uma mão cheia de castanhas, agasalhadas por folhas de lista telefónica, como manda a sapatilha.
Os fogareiros já não são feitos pelos serralheiros de outrora, com as sobras do zinco dos clientes. Nem as partes eram juntas com as marteladas nos pregos de chumbo. Nem cortadas à mão, com uma espécie de tesoura da poda. Vendiam-se muitos nesta altura do ano, porque serviam a castanha e mais tarde a sardinha. Os artistas ganhavam uns cobres para a família. Arrumá-los todos para venda é que era difícil.
Lá continuamos, degustando castanhas bem assadas. Parávamos aqui e naquela montra com alguma novidade desconhecida. Demos alguma atenção à compra de dois e pagas um.
As castanhas transmontanas, produto natural, escolhidas a dedo, no sentido da maior, encaminharam – se para o nosso burgo, em sacos de serapilheira e pousaram em cada esquina. Elas não vieram para enfeitar esquinas. Vieram para cair dentro de panelas furadas, por onde entram as brasas que as tornam vaidosas e gostosas. Só que, quando trituradas no estômago, secam-no. Sendo necessário molhá-lo.
Pois muito bem, fiquem sabendo que, lá para as bandas de Mouzinho existe um estabelecimento comercial que fornece um café espectacular, por uma saída dos bolsos que não deixa remorsos. Tragado com suavidade e leveza, não é coisa costumeira.
O término ainda estava longe e a latada esperava-nos nos Clérigos.
A malta conseguiu reunir uma montanha de latas, com as quais aproveitou para retirar o silêncio aldeão do fim-de-semana. É verdade, o burgo que amamos até a eternidade não tem só vistas, tem ruídos e cheiros que variam, segundo o dia da semana. Calados os pós-pós, vem à ribalta outros cânticos, outras melodias que nos deixam atónitos, porque não prestamos atenção ao seu ecoar, por entre os emires de tão grandiosa catedral.
O Porto não se estende por um só sentido. O Porto irradia em todas as direcções os nossos sentimentos. Melhor dizendo, irradia a nossa grandiosa cultura. O Porto é uma forma singular de sentir e pensar.
Antes de retomar o rumo, não podemos esquecer o que está dentro, porque o que está por fora, reflecte-se através de fachadas que nos fazem dirigir os olhos e criam formigueiro na palete do sistema ocular.
Devagarinho e de passagem apreciamos os gostosos pastéis da confeitaria noctívaga, situada num dos passeios, da rua sobranceira à Torre dos Clérigos, da qual somos clientes, ora sim, ora não.
No começo da rua deparamos com o novo conserto do mercado. Uma coisa é colocar os olhos numa folha de papel, outra é dar trabalho aos sentidos. Realmente, os homens do desenho fizeram um bom trabalho. O telhado é um jardim de oliveiras, que mata as saudades a muitos e encanta o olhar a todos. Espero que elas não morram e que todos as respeitem. Por baixo, uma pequena rua cheia de estabelecimentos comerciais, que bate de frente com a Lello e cujo chão é coberto por pequenas placas de granito, a imitar as coberturas com tacos de madeira. Uma rua que nos permite olhar para o céu e, simultaneamente, nos abriga do sol e da chuva, enquanto miramos as suas lojas.
Seguindo em frente, deparamos que os Leões não jorravam água como outrora, quando por lá passávamos de eléctrico. Os doutores enfiaram-se na fonte e aproveitaram para lavar as sacas das latas. A juventude num acto de afoito e rebeldia deram-nos mostra da sua coragem e grande lata. O que não quer dizer que um acto desmedido hoje, não conduza a actos bem medidos amanhã. Convém salientar que alguns maçaricos apanhavam as latas que iam caindo ao chão.
Ao olhar para os portões da Universidade, onde entrei pela primeira vez, no verão de setenta e três, para um cursito, a ver se gostava de coisa determinada, solicitei à consciência para desviar os olhos e seguir caminho. Assim, evitei admirar tantas pinturas rupestres lavradas nos ditos portões pelos sprays da noite.
Sempre achei que Carlos Alberto é uma das praças mais bonitas da Cidade, mas um tanto despida de arvoredo, pela ausência de equilíbrio, embora reconheça que o alcançar é difícil.
Entramos na Rua estreita, antes florescente de bom negócio, aproveitamos para matar saudades e, mais uma vez, apreciar a dignidade e a força dos seus comerciantes.
Como dizia, muitas vezes, passamos parte das nossas vidas a prometer entrar em algum sítio e nunca cumprimos tais promessas. É vergonhoso.
Ontem, cumprimos mais uma. Uma porta de vidro chamou-nos, entramos, olhamos em frente, reconhecemos as imagens de grandes e boas pessoas, e meditamos com toda a serenidade do mundo.
Algo na nossa Cidade está a mudar.
A mudar com calma, sem pressas, sem destruir a memória e prevenindo erros crassos de gravíssimas consequências. O futuro vem na mesma. À medida que ele se aproxima juntamos a nossa melhor racionalidade e sensibilidade às acções, de modo a não destruir aquilo que nos distingue.
As castanhas transmontanas, produto natural, escolhidas a dedo, no sentido da maior, encaminharam – se para o nosso burgo, em sacos de serapilheira e pousaram em cada esquina. Elas não vieram para enfeitar esquinas. Vieram para cair dentro de panelas furadas, por onde entram as brasas que as tornam vaidosas e gostosas. Só que, quando trituradas no estômago, secam-no. Sendo necessário molhá-lo.
Pois muito bem, fiquem sabendo que, lá para as bandas de Mouzinho existe um estabelecimento comercial que fornece um café espectacular, por uma saída dos bolsos que não deixa remorsos. Tragado com suavidade e leveza, não é coisa costumeira.
O término ainda estava longe e a latada esperava-nos nos Clérigos.
A malta conseguiu reunir uma montanha de latas, com as quais aproveitou para retirar o silêncio aldeão do fim-de-semana. É verdade, o burgo que amamos até a eternidade não tem só vistas, tem ruídos e cheiros que variam, segundo o dia da semana. Calados os pós-pós, vem à ribalta outros cânticos, outras melodias que nos deixam atónitos, porque não prestamos atenção ao seu ecoar, por entre os emires de tão grandiosa catedral.
O Porto não se estende por um só sentido. O Porto irradia em todas as direcções os nossos sentimentos. Melhor dizendo, irradia a nossa grandiosa cultura. O Porto é uma forma singular de sentir e pensar.
Antes de retomar o rumo, não podemos esquecer o que está dentro, porque o que está por fora, reflecte-se através de fachadas que nos fazem dirigir os olhos e criam formigueiro na palete do sistema ocular.
Devagarinho e de passagem apreciamos os gostosos pastéis da confeitaria noctívaga, situada num dos passeios, da rua sobranceira à Torre dos Clérigos, da qual somos clientes, ora sim, ora não.
No começo da rua deparamos com o novo conserto do mercado. Uma coisa é colocar os olhos numa folha de papel, outra é dar trabalho aos sentidos. Realmente, os homens do desenho fizeram um bom trabalho. O telhado é um jardim de oliveiras, que mata as saudades a muitos e encanta o olhar a todos. Espero que elas não morram e que todos as respeitem. Por baixo, uma pequena rua cheia de estabelecimentos comerciais, que bate de frente com a Lello e cujo chão é coberto por pequenas placas de granito, a imitar as coberturas com tacos de madeira. Uma rua que nos permite olhar para o céu e, simultaneamente, nos abriga do sol e da chuva, enquanto miramos as suas lojas.
Seguindo em frente, deparamos que os Leões não jorravam água como outrora, quando por lá passávamos de eléctrico. Os doutores enfiaram-se na fonte e aproveitaram para lavar as sacas das latas. A juventude num acto de afoito e rebeldia deram-nos mostra da sua coragem e grande lata. O que não quer dizer que um acto desmedido hoje, não conduza a actos bem medidos amanhã. Convém salientar que alguns maçaricos apanhavam as latas que iam caindo ao chão.
Ao olhar para os portões da Universidade, onde entrei pela primeira vez, no verão de setenta e três, para um cursito, a ver se gostava de coisa determinada, solicitei à consciência para desviar os olhos e seguir caminho. Assim, evitei admirar tantas pinturas rupestres lavradas nos ditos portões pelos sprays da noite.
Sempre achei que Carlos Alberto é uma das praças mais bonitas da Cidade, mas um tanto despida de arvoredo, pela ausência de equilíbrio, embora reconheça que o alcançar é difícil.
Entramos na Rua estreita, antes florescente de bom negócio, aproveitamos para matar saudades e, mais uma vez, apreciar a dignidade e a força dos seus comerciantes.
Como dizia, muitas vezes, passamos parte das nossas vidas a prometer entrar em algum sítio e nunca cumprimos tais promessas. É vergonhoso.
Ontem, cumprimos mais uma. Uma porta de vidro chamou-nos, entramos, olhamos em frente, reconhecemos as imagens de grandes e boas pessoas, e meditamos com toda a serenidade do mundo.
Algo na nossa Cidade está a mudar.
A mudar com calma, sem pressas, sem destruir a memória e prevenindo erros crassos de gravíssimas consequências. O futuro vem na mesma. À medida que ele se aproxima juntamos a nossa melhor racionalidade e sensibilidade às acções, de modo a não destruir aquilo que nos distingue.
Trajecto pedestre: Santa Catarina, Santo Ildefonso, Comando, Vimara Peres, Mouzinho, Clérigos, Leões, Cedofeita, Bragas, para casinha que já se faz tarde.
29.10.2012
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